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Por Melissa Carísio

A 2ª Bienal do Livro de Volta Redonda está acontecendo até dia 10 de maio, no Condomínio Cultural, na Volta Grande III. A programação deste ano está bastante diversificada e trará desde espaços para expositores, à debates com escritores, palestras, músicos, ballet, capoeira, circo, teatro, contadores de histórias, recitais de poesia, stands e praça de alimentação. As primeiras atrações acontecem na parte da manhã e estão programadas para começar às 09h e terminar às 20h. A classificação é livre e a entrada é franca.

Marinez Fernandes, presidente do Instituto Dagaz – organização pública diretamente ligada à criação e produção do evento – falou em seu livreto apresentativo um pouco sobre a Bienal; “O tema principal é a Diversidade, reunindo todas as formas e expressões culturais em um espaço de coexistência!
O objetivo é fomentar a prática e o hábito da leitura e da escrita, de forma lúdica, em todas as faixas etárias; oportunizar o encontro entre autores e leitores; democratizar o acesso aos variados estilos literários; dar visibilidade aos escritores e escritoras da região e mobilizar toda a população para o fortalecimento da arte e da cultura.”

Daiane Landim trabalha como apoio da Bienal e falou um pouco sobre a importância desse evento para a comunidade, principalmente para o bairro em que está inserida. “É muito importante trazer uma Bienal para a periferia, já que os moradores aqui não tem uma acessibilidade muito grande aos livros, portanto não têm hábito de ler. Outro ponto positivo é estimular a leitura nas pessoas. Dessa forma elas acabam percebendo que a literatura é muito além de uma biblioteca chata. É diversão, história”, explicou.

Stands

Neste ano, a Bienal conta ao todo com 22 stands de exposição, dentre eles de livrarias, lojas, stands universitários, escolas e associações beneficentes. A Associação Arcanjo Gabryel, localizada em Penedo é uma delas.
Desde 1996, a associação sem fins lucrativos, atende jovens e adultos que necessitam de cuidados educacionais e terapêuticos especiais, seguindo os princípios da Terapia Social, teoria que estimula a vontade, desenvolve o equilíbrio e fortalece o equilíbrio dos assistidos.

Trabalhos artesanais desenvolvidos pelos internos.

Trabalhos artesanais desenvolvidos pelos internos.

Quem quiser acompanhar as novidades da Associação, basta clicar aqui e acessar a página no Facebook. A festa junina do Arcanjo Gabryel acontece em 28 de junho e é uma das mais aguardadas pela cidade! Todos estão convidados! 🙂

Já na sala dos escritores, a editora Off Flip, foi criada em 2008 para estimular o crescimento dos autores locais. Atualmente contam com uma programação literária em Parati, que acontece juntamente com a festa da cidade.
A escritora Simone Mota falou um pouco sobre o lançamento de seus livros infantis, uma coletânea de seis títulos pelo Selo Off Flip.

“Eu escrevo de tudo. Mas como tenho filho pequeno, aliei isso à escrita. As crianças trazem consigo coisas muito positivas: a sinceridade e a franqueza. Elas são muito transparentes. Ou elas gostam de alguma coisa ou não. Se você escreve pra elas, tem um feedback legítimo”, disse.

Para ela, ler é importantíssimo, porque isso é o que nos mantém férteis. “O livro precisa causar alguma coisa no leitor. Seja sentimentos bons ou ruins. A arte não tem motivo nem razão de existir se não despertar nada em alguém”, finalizou.

“Eu não gosto de…” é uma das coleções divulgadas pela autora.

Já o stand da Construtora Aceplan, um dos co-patrocinadores do evento, esteve bastante movimentado. As crianças que colorissem um desenho de forma bastante original estariam concorrendo a um tablet.

Os desenhos feitos por eles foram expostos! :)

Os desenhos feitos por eles foram expostos! 🙂

Foi lá que encontrei Josiane Alves, 11 anos e Rayana Souza Freitas, 15 anos. As duas são primas e moram no bairro da Bienal. Elas se interessaram pelo evento e vieram procurar um livro no qual são apaixonadas: O romance do autor estadunidense Nicholas Sparks: “Um amor pra recordar”.  Segundo elas, as duas leem bastante.

Concentração é fundamental.

Concentração é fundamental.

Convidados especiais

Além da Sala dos Escritores, em que mais de 50 autores vieram de diversos locais para discursar, a Tenda Dagaz trouxe inúmeras palestras.
Tupã Darcyr, cacique da aldeia Mata Verde Bonita, reserva indígena em Parati, falou um pouco sobre a cultura de seu povo: os guaranis.

Tupã Darcy respondendo as perguntas dos alunos.

Tupã Darcyr respondendo as perguntas dos alunos.

Oi Tupã. Você tem um nome “normal”?

Sim, tenho um nome normal e sobrenome normal. Meu nome é Darcyr Nunes de Oliveira, devido ao Darcy Ribeiro, que fez um trabalho bacana lá na aldeia, aí minha mãe fez essa homenagem. Meu nome indígena é Tupã.

(Se você não sabe quem é Darcy Ribeiro, clique aqui :P)

Como é ser um cacique de uma aldeia? Como funciona essa questão da hierarquia?

Hoje você tem que ser um político. O político da aldeia. A vida de uma aldeia hoje é diferente de uma aldeia de 50, 100 anos atrás. Ela tinha caça, fartura, relacionado aos recursos naturais, e hoje não. Nós líderes temos que buscar fazer parcerias, conseguir remédios, ervas medicinais, buscar a melhoria do saneamento básico, levar dentistas, médicos para a aldeia. Hoje pra você ser líder, não é pra qualquer um.

E como se elege um cacique?
Fui escolhido através de votação.

E o cacique antigo? O que houve com ele?
Ele saiu do cargo. Ah, gente brinca, né… Já estou há dez anos sendo cacique, aí tem vezes que eu falo “ah, quero parar, me aposentar.”

Tupã Darcyr e seu cocar.

Tupã Darcyr e seu cocar.

Como vocês votam numa eleição?
Agora nós temos título, já votamos. Não sei se é obrigado, mas queremos participar dessa nova política do Brasil.

Você acredita que esse sistema em que o “homem branco” vive funciona? Porque a vida de vocês é totalmente diferente da nossa.
Caramba, na minha aldeia eu nunca coloquei um cadeado na porta da minha oca. As pessoas entram pra beber água. Não temos o perigo das pessoas entrarem no seu lar e roubar alguma coisa. Existe respeito. As regras fazem com que o respeito exista.

E quais são essas regras?
Nossa, são tantas regras! Por exemplo, não mexemos com ervas depois que o Sol se põe. Não andamos no escuro, porque acreditamos que o espírito do Sol está descansando e os espíritos do mal nos atacam. Precisamos repousar… Lá na aldeia, os índios dormem cedo… Eu durmo mais tarde um pouquinho, mas não passo das dez horas. Cinco horas já está todo mundo acordado.

E em relação à vida em sociedade?
Eu acredito que quando você trabalha “aqui fora” você precisa estar pronto. Alguns índios saíram da aldeia, se formaram advogados e não voltaram mais. Visam o dinheiro, ter carro, apartamento caro e a cultura indígena não é isso. Pra gente isso não quer dizer nada. O mais importante pra gente é preservar a natureza, porque é dela que nós vivemos.

Com o que vocês gastam o dinheiro?
O dinheiro tem que ser pro básico. O índio sabe trabalhar com a terra, sabe criar um peixe, uma galinha. E quanto menos entrarmos num supermercado, melhor. É uma vergonha um índio entrar num mercado pra comprar aipim e batata.

O que é o básico então?
Sabão. Alguns dos índios da aldeia também estão acostumados a lavar cabelo com shampoo…

Quantas famílias vivem na aldeia?
72 pessoas, 15 famílias.

E como vocês se relacionam?
A minha cultura ela é muito aberta. Eu sou uma das pessoas que sou casado com alguém não-indígena. Ela se apaixonou pela minha cultura e foi viver na minha aldeia. Ela é uma mulher branca. Eu a amo e ela me ama e é assim que funciona.

A rivalidade entre os indígenas, ainda existe?
Eu acredito que o que faz com que uma aldeia lute contra a outra, é a política. Se a política fosse boa pra todos, não haveria luta. Os índios têm que se ajudar.

Você disse que o papel primordial do indígena é a preservação dos recursos naturais. Como vocês lidam com isso?
A nossa oca é feita de palha e as paredes são de barro. E a estrutura que segura o barro é feita de bambu, vem da natureza. Se um dia eu não morar mais na minha oca e quiser derrubar ela no chão, pra terra ela vai voltar. Não vou prejudicar a terra na qual eu fiz a minha casa.

A cultura de vocês acredita em vários Deuses?
Não, só um. Só um Deus só. O nome Nianderu. Eu sou filho do Deus Trovão.

Nós temos uma ideia totalmente errada e absurda que os índios vivem isolados e não entram em contato com a tecnologia. O que vocês costumam usufruir dela?
Na aldeia a gente tem televisão, tv a cabo, internet. Somos uma cultura da natureza, da mata, não nos preocupamos muito com essas coisas. Só paro pra assistir o jogo do flamengo.

E tem índio vascaíno?
No meio de uns mil flamenguistas, tem uns três vascaínos…

E os esportes de vocês? Praticam algum?
Temos a corrida de tora, cabo de guerra, tiro de arco e flecha, lança de longa distância…

Quais projetos estão acontecendo na aldeia agora?
Durante essas próximas duas semanas, 40 índios produzirão filmes, num projeto de capacitação. Esses indígenas querem ser cineastas e levar a nossa cultura para o cinema, não só trazer a cultura de fora.

Você disse que não tem o hábito de assistir TV. Como faz para acompanhar as notícias?
Eu vejo jornal, reportagens. Mas novelas, outras coisas.. não acompanho. Se eu ficar na frente da TV acabo dormindo. Não tenho aquele prazer de sentar. Mas depende da cultura do índio. Tem culturas indígenas que se apegam muito à tecnologia. Não vivem sem TV à cabo, vivem o dia inteiro no Facebook e eu já não tenho esse hábito.

Como funcionam as escolas na aldeia?
A nossa escola é diferenciada, porque é bilíngue. Além das crianças falarem a língua materna, o guarani, aprendem o português como segunda língua.

E as roupas de vocês, como são?
Temos os nossos acessórios de apresentação, do dia-a-dia. Tanga, colares… A tanga é feita de fibra de palha.

Você usa o cocar o dia inteiro?
Não, mas pego nele uma vez ao dia, pelo menos. Me sinto bem.

O cacique é apenas um dos muitos convidados da Bienal. O resto da programação você pode conferir clicando aqui. Visite a Bienal do Livro! Cultive o hábito de ler e estimule aqueles que estão próximos de você!

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